Transferência
o obstáculo que se tornou o instrumento do tratamento
Resumo
A transferência começou como um estorvo à investigação e terminou como o principal recurso do tratamento. Este artigo acompanha essa inversão, distingue suas formas positiva e negativa e discute o manejo que ela exige do analista.
Palavras-chave: Transferência. Resistência. Contratransferência. Manejo clínico. Repetição.
1. Um estorvo inicial
Nos primeiros tratamentos, Freud percebeu que os pacientes desenvolviam por ele sentimentos intensos — devoção, encantamento, hostilidade — que pareciam desviar o trabalho de seu curso. A reação inicial foi tratar isso como interferência a ser contornada. A mudança veio quando ficou claro que esses sentimentos não eram acidentais: obedeciam a um padrão, repetiam relações antigas e apareciam sempre nos mesmos pontos do tratamento, especialmente quando a investigação se aproximava de material conflitivo. O que parecia ruído era, na verdade, o fenômeno central (cf. Freud, 1912).
2. Definição
Transferência é a atualização, na relação com o analista, de desejos e modos de vínculo constituídos em relações anteriores, sobretudo as infantis. Não se trata de o paciente “lembrar” dessas relações: ele as repete, atribuindo ao analista lugares que pertenciam a outros. A formulação decisiva de Freud é que aquilo que não pode ser recordado é reproduzido em ato. A transferência é, portanto, a forma pela qual o passado comparece ao presente da sessão — não como narrativa, mas como acontecimento (cf. Freud, 1914).
“O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem saber que o faz.”
3. Positiva, negativa e erótica
A distinção tem consequências práticas. A transferência positiva — confiança, estima, disposição para colaborar — sustenta o trabalho e constitui a base sobre a qual a interpretação pode ser recebida. A transferência negativa — desconfiança, irritação, desafio — costuma sinalizar que algo importante está sendo tocado e não deve ser tratada como fracasso do tratamento. Já a transferência erótica exige particular firmeza: Freud foi categórico ao afirmar que ela deve ser compreendida e interpretada, nunca correspondida, sob pena de destruir a própria condição do trabalho analítico (cf. Freud, 1915).
4. A face resistencial
Há um paradoxo que convém enunciar sem rodeios. A transferência é ao mesmo tempo o motor e o freio do tratamento. Motor, porque é nela que o conflito se apresenta de forma viva e acessível. Freio, porque repetir em ato é justamente o modo de não recordar: enquanto o paciente atua, ele se poupa de elaborar. Por isso o trabalho analítico consiste em converter a repetição em rememoração — transformar aquilo que se encena em algo que se possa dizer e reconhecer como próprio.
5. Contratransferência
O analista também não é neutro em sentido absoluto. Contratransferência designa o conjunto de reações emocionais que a transferência do paciente suscita nele. A leitura mais antiga a via como obstáculo, sinal de pontos cegos que a análise pessoal deveria reduzir. Correntes posteriores — sobretudo a partir de Paula Heimann — passaram a considerá-la também uma via de informação: o que o analista sente pode revelar algo sobre o que o paciente comunica sem palavras. Nas duas leituras, a exigência é a mesma: supervisão e análise pessoal, para que a reação não se converta em atuação (cf. Zimerman, 1999).
6. A leitura lacaniana
Lacan deslocou o eixo da questão. Para ele, a transferência não se explica primariamente pelo afeto, mas pela suposição de saber: o analisante atribui ao analista o lugar de quem sabe algo sobre a verdade de seu sofrimento — o sujeito suposto saber. Esse lugar é uma ficção necessária, pois é ela que põe o trabalho em movimento. Mas é uma ficção destinada a cair: o final da análise implica a destituição desse lugar, com o reconhecimento de que o saber estava do lado do próprio analisante (cf. Lacan, 1964).
7. Manejo
Do exposto decorrem algumas orientações práticas. Interpretar a transferência quando ela funciona como resistência, e não a cada manifestação afetiva. Sustentar o enquadre — horário, duração, pagamento — porque é a estabilidade do quadro que permite ler o que dele se desvia. Evitar tanto a rejeição fria quanto a correspondência ao pedido de amor, pois ambas encerram a questão em vez de abri-la. E, sobretudo, não tomar como pessoal o que é endereçado a um lugar (cf. Freud, 1912).
Lógica do tema (a transferência)
O percurso é uma inversão exemplar. Um fenômeno é primeiro percebido como obstáculo; observa-se que ele é regular e não acidental; conclui-se que a regularidade indica estrutura; e a estrutura revela que se trata de repetição do passado em ato, na falta de rememoração. Daí decorre a dupla face: a transferência impulsiona, porque traz o conflito para dentro da sessão, e resiste, porque atuar dispensa lembrar. O tratamento consiste então em converter atuação em palavra. Como o analista participa dessa cena, sua própria reação — a contratransferência — precisa ser objeto de análise. E como o motor de tudo é a suposição de saber dirigida a ele, o desfecho consiste na queda desse lugar suposto.
Quadro sinóptico
| Tema | Explicação |
|---|---|
| Transferência | Atualização de desejos e modos de vínculo antigos na relação com o analista. Manifesta-se como repetição em ato, e não como recordação. É simultaneamente motor e resistência do tratamento. Constitui o campo próprio da intervenção analítica. |
| Transferência positiva | Conjunto de afetos ternos e de confiança dirigidos ao analista. Sustenta a aliança de trabalho e torna a interpretação recebível. Em excesso, pode converter-se em obstáculo idealizante. Não deve ser confundida com sucesso do tratamento. |
| Transferência negativa | Manifestações de hostilidade, desconfiança ou desafio dirigidas ao analista. Indica com frequência a proximidade de material conflitivo. Exige interpretação e não retaliação. Sua emergência não configura fracasso. |
| Transferência erótica | Demanda amorosa endereçada à pessoa do analista. Deve ser compreendida como fenômeno do tratamento, não como fato da vida. Não pode ser correspondida sob nenhuma hipótese. Sua interpretação é condição de continuidade da análise. |
| Repetição (atuação) | Reprodução em ato daquilo que não pode ser recordado. Substitui a rememoração e, nessa medida, a impede. Oferece material privilegiado quando reconhecida e nomeada. Converter atuação em palavra é tarefa central do trabalho. |
| Contratransferência | Conjunto das reações do analista à transferência do paciente. Foi lida inicialmente como obstáculo a ser reduzido pela análise pessoal. Correntes posteriores a tomam também como instrumento de escuta. Exige supervisão para não se converter em atuação. |
| Sujeito suposto saber | Lugar atribuído ao analista pelo analisante, de quem detém o saber sobre seu sofrimento. Formulação lacaniana que fundamenta a transferência na suposição, e não no afeto. É condição de partida do tratamento. Sua queda marca o desfecho da análise. |
| Enquadre | Conjunto de regras estáveis do tratamento: horário, duração, frequência, pagamento e abstinência. Fornece a constância que permite reconhecer o que dela se desvia. Seu manejo é parte da técnica, não formalidade administrativa. Sua ruptura costuma ter valor interpretável. |
| Abstinência | Princípio segundo o qual o analista não satisfaz as demandas transferenciais do paciente. Preserva a tensão que sustenta o trabalho. Não se confunde com frieza ou distância. Protege tanto o paciente quanto o processo. |
Referências
FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, v. 10.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, v. 10.
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor de transferência (1915). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, v. 10.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999.